ESCRITOR NA REDE!

 Textos: Marco Adolfs...

 

 

 

 

 

FELIZ ANO NOVO!

Natal e Ano Novo. Essas palavras significam nascimento e novidade. Mudança. O que é sempre bom. Com esses pensamentos na cabeça resolvi parar de escrever. Resolvi entrar em recesso. Deixar de lado os constantes escritos das periódicas crônicas e das chatas e opressoras revisões. Buscar a libertação do trabalho, da vaidade momentânea, da procura do erro ortográfico e até de uso do verbo, da vírgula e da concordância. Do crivo do leitor. Do pesquisador de erros do outro e do crítico de ocasião. Precisava parar com isso. “Aquilo que nos liberta, pode também prender.”, pensei.

Percebi então que não queria mais escrever. Não por falta de ideias, mas, porque já havia escrito muito: o amor e a perda, o riso e a dor, o nascer e o morrer. Cada nuance da vida eu registrara. Lançara alguns livros (que fiz questão de depurar e apurar ao máximo). Transformei-os então em e-books e coloquei-os na Amazon Book. O meu legado a ler num Kindle futuro. Mas que não desejava fazer mais nada disso. Um direito meu.

No início, o silêncio no qual ficaria imerso, assustou-me. O escritor, que sempre se definira pelas palavras, sentiu-se nu diante da ausência delas. Mas, pouco a pouco, descobri que esse vazio não era um fim — era uma liberdade. Para mim. Um reencontro com o meu eu livre. E assim, encontrei a minha maior obra final: o silêncio. Não o silêncio da falta, mas o silêncio da plenitude. A liberdade de não mais escrever, porque já havia escrito tudo o que desejara escrever.

Mas, um dia, deixarei o livro “Histórias Amazônicas”, aí. Para ser impresso, usando papel e tinta, e ficar estacionado em alguma estante em madeira no fundo, perdido, da possibilidade de um leitor passante. “No futuro?”

E Feliz Ano Novo, amigo! Escreveu então o escritor, para terminar o que desejava escrever para o ansioso editor da enorme livraria e editora da sua cidade. Um e-mail deveras complicado.

Um grande abraço,

M.A.

 

A BARBÁRIE! A BARBÁRIE! 

 

Estava voltando de mais uma longa viagem e fui descansar. Horas de viagem em um avião acabam com qualquer mortal. E descansei. Mas, quando amanheceu depois de um longo e reparador sono, resolvi sair um pouco e espairecer. Flanar pela cidade. Havia chovido e o clima estava muito bom. Resolvi ir até uma conhecida livraria localizada no centro da

Chamei por um Uber, com preguiça de dirigir. Assim que o carro se aproximou do centro, os meus olhos se distraíram observando a paisagem lá fora. A avenida por onde circulava era uma extensão de árvores altaneiras. Para o meu olhar, elas é que passavam céleres. O passado e o presente confundidos num instante fugidio. De repente lembrei-me então de quando criança, correndo por aquelas mesmas ruas do centro daquela conhecida cidade. Cidade de outros tempos.

Mas reconheci alguns lugares como se estivessem ainda inertes na minha memória. Casas da minha infância que não haviam mudado nada por fora, mas que por dentro talvez abrigassem alguns fantasmas insistentes ou vagabundos pretensiosos. Máscaras encardidas de antão. O Uber parou quase em frente à grande praça central e saí.

Entrei na livraria. Lugar onde o agente literário Honório Tebes estava trabalhando. O colete de sempre —  estilo copiado de um conhecido poeta local, já falecido —  os óculos de aro grosso; e o cabelo ajustado num rosto achatado, emoldurado por uma barba rala. Honório veio na minha direção com a mão estendida.

— E aí, Honório! Como está indo tudo? — perguntei.

— Tudo bem, a não ser a barbaridade lá fora. A barbárie nos assola a alma. A barbárie!

— Verdade.

Conversamos um bom tempo. Com a livraria transformada num magnífico espaço gourmet. Quando saí da livraria o barulho de um batuque, num bar ao lado, me atingiu em cheio. “A barbárie! A barbárie”, pensei. E foi aí que, ao sair, percebi que eu nem sequer havia folheado um livro de capa interessante para comprar. Como antigamente. “Que coisa!", pensei exclamativamente, para mim, enquanto pegava o celular para chamara por mais um Uber.

 

A DESEJAREM SELFIES! 

 

— Mas qual o mais importante, o livro ou o escritor? — perguntei, virando-me na direção da secretária da editora à procura da sua opinião.

Ela pensou por uns instantes e respondeu, timidamente, que era o escritor.

— Isso, para mim, é um ataque de estrelismo de diva de cinema — observou o coordenador editorial Honório Tebes, inserindo-se na nossa conversa. Estava possesso devido à minha atitude contrária aos seus anseios de editor. Eu reclamava de toda essa parafernália de festivais literários.

— E não é nisso que vocês querem transformar-nos? — retorqui então. — Em estrelas de cinema, discutindo veleidades em mesas chatas, carregadas de discursos tediosos — completei, rindo.

— Mas você é um escritor — continuou o editor. — Que todos querem ver e escutar e...

... — Escritor só deveria escrever; e, no máximo, lançar o seu livro bem rápido e desaparecer — disse, provocando-lhe mais ainda. — Somos seres solitários e escrevemos em silêncio — tentei justificar e explicar.

Ele não se deu por vencido e continuou.

... — Agora famosos e com...

... — Com a mídia e esses olhares de gente ansiosa em cima da gente — completei.

— Quer ficar isolado em uma torre de marfim? — perguntou um exasperado editor. E completou firme: — O escritor hoje tem que andar por aí vendendo o seu livro e falando dele. Formar o seu público.

— Esse público de eventos abertos, confesso, parece um bando de devoradores — fiz observar ainda, sentando-me na beira da cama com um copo com uísque que a secretária oferecera a mim com o intuito de me acalmar. O editor olhou para mim em silêncio. Continuei a desfiar as minhas justificativas sob o olhar da secretária, agora quieta a um canto. Tentei então ser definitivo.

... — A escrita em si e para si e não o falar em público, essa é a única verdade de um escritor — balbuciei. Agora, você quer que eu discurse como um professor, ou como um político? Atrair gente para gastar? E, quer saber de uma coisa? Não vou mais para aquela mesa de Santa Ceia literária.

O editor deixou-se cair em uma poltrona do quarto do hotel, sem saber o que mais dizer. Olhava para a minha cara de escritor rebelde e achava que estava enfrentando um problema. Ainda mais que daqui à meia hora eu estava escalado para me apresentar na frente de um auditório lotado de amantes da literatura, da imprensa e de jovenzinhas e velhotas deslumbradas, em geral. Todos esperando por um escritor falar qualquer coisa para preencher as suas vidas vazias. Preenchendo as suas necessidades de celebridades e semideuses. Ou simplesmente a desejarem selfies registradas e livros autografados. Livros esses que dificilmente iriam ler ou entender de todo.

 

O RABO DO CÃO - Pandemia 

 

O ano de 2020 mal começara e eu já estava vivendo a quarentena solicitada pelas autoridades de saúde. Fugira para um sítio de minha propriedade localizado num município perto da capital. E como escritor que sempre era, havia começado, também, um novo trabalho. Resolvera escrever um livro de contos para passar o tempo de ociosidade que teria devido a essa obrigatoriedade sanitária decretada devido à grande epidemia de um novo vírus que se alastrava pelo mundo. A Pandemia da Covid-19.

Peguei a minha esquecida embarcação particular movida a um pequeno motor de popa, guardada numa marina da cidade e fugi o mais rapidamente possível, visando ficar isolado nesse sítio. Fugi carregando vários mantimentos, claro. Mas não ficaria totalmente isolado, pois, esse meu sítio, embora pequeno e humilde, estava conectado a canais de TV e Internet. Era só plugar a pequena TV que levava. Levava também um rádio e o meu inseparável computador. E, como já disse acima, esse município do estado do Amazonas não ficava muito distante da capital. E o sítio era praticamente colado na sede do município.

Alguns metros quadrados de mata e uma pequena casa formavam a sua visão geral. Lugar bem localizado, à beira de um caudaloso rio de cor amarelada, a que eu tinha acesso tanto por terra quanto por água, graças a um pequeno atracadouro e a uma estreita estrada vicinal barrenta. O meu objetivo principal ali seria ficar, o máximo possível, escrevendo, comendo, bebendo e dormindo. E fornecer, no final de tudo, a redação terminada de um livro de contos que eu havia pensado e de certa forma até elaborado, incipientemente.

Antes de embarcar na minha fuga, comprei dezenas de alimentos ultra processados, latas de conserva, vários limões; caixas de fósforos, várias pilhas para o rádio e a lanterna e até um filtro de barro. E muito mais. Mas o que não poderia faltar, de jeito algum, era um estoque de dez garrafas de rum e dez garrafas de gim, as minhas bebidas preferidas. Depois peguei algumas roupas necessárias. Comprei também os remédios necessários, peguei cinco livros grossos ainda não lidos e uma rede. Coloquei tudo numas mochilas e sacolas grandes que tinha. E parti. Parti, sentindo-me bem por aquilo. No sítio, eu já sabia existir um frigobar, um fogão elétrico, um velho freezer, móveis baratos e outras bugigangas necessárias deixadas por lá. Ficaria bem, dentro dessas possibilidades existentes. Escrevendo um livro crônico: O Rabo do Cão...

 

O RIO E O JARDIM

 

O Rio de Janeiro foi o lugar onde nasci e passei parte da minha infância. E, morando a poucos metros do Jardim Botânico, posso dizer que ali foi, no início da minha vida, o meu quintal ou paraíso particular. Sempre passeando por lá. Em meio a plantas. E, quando estou no Rio, lá vou eu religiosamente agradecer a ainda eterna acolhida que o Jardim Botânico do Rio me oferece. Suas árvores são velhas conhecidas; a sua terra parece a mesma de antes; a água que escorre vinda dos montes ali perto nunca parou de escorrer. Tudo parece intocado; o mesmo. Tempo congelado escoando lembranças. Tempo reencontrado no tempo. Lembro sempre de um dia, então. Estava ao lado de um professor e conversávamos sobre botânica e ecologia.

— Vejo que o teu olho brilha quando você observa as folhas, os troncos, os pequenos detalhes das plantas. Isso é bom. A botânica começa com a contemplação — disse o professor, puxando por mim.

— Eu tento compreender… Quero entender como tudo se conecta. As plantas, os animais, o solo, o clima. Acho que isso é… ecologia?

— Ecologia é isso, sim. Uma palavra ainda pouco falada. Muitos pensam que é apenas mais um ramo da biologia. Mas é mais profundo: é o estudo das relações, dos sistemas vivos em conjunto. Inclusive nós, os humanos.

— Então não é só classificar espécies, como na botânica? É ver como elas vivem juntas, como dependem umas das outras?

— Exato. A botânica dá o nome das árvores, das flores e das raízes. A ecologia mostra como elas respiram junto com o mundo, como sustentam os pássaros, como moldam o solo. É como aprender a língua e depois compreender a poesia.

— Então, professor, estudar ecologia é aprender a ver o mundo como uma rede?

— Sim. Uma rede viva.

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro continua. Hoje, em Manaus, minha adoração e admiração por plantas e regatos borbulhantes está no lugar onde estabeleci o meu escritório de trabalho. A vida é um rio passando. O verde acenando.

A NOITE NÃO EXISTE

 

Estava vivendo num mosteiro tibetano, estudando e meditando.

— A noite não existe, é somente uma ausência dos raios do Sol; que, no outro lado, brilha, pois, o que existe é o movimento da Terra; que, neste espaço, gira — ensinava-me o monge.

— E o tempo, mestre? — perguntei ainda.

— O tempo? Não existe também — afirmou o monge — pois o que existe é o movimento da Terra e que disseram formar os dias; e esse tal do tempo, que dizem passar, é devido ao relógio inventado.

— Então os dias também não existem? — concluí.

— Nunca existiram, disse o velho e sábio monge.

— É tudo invenção do pensamento do homem — observou.

— Nada existe, então? — perguntei incrédulo.

— Nada — respondeu o sábio. — Só essa energia em transformação — afirmou, então. Você não sabe a idade que tem e nunca saberá, por exemplo. É tudo inventado para ser marcado em certidões e identidades; para imaginar o que dizem passar. Creiam. Tudo somente existe e deixa de existir em perpétua movimentação. É tudo invenção e imaginação nossa. No princípio, vê-se o fim. E, o fim, é o recomeço.

E, ao ouvir aquelas palavras, senti que o silêncio do mosteiro se tornava mais vasto que o próprio universo. O vento atravessava as montanhas como se fosse a respiração da Terra, e percebi que não havia noite, nem dia, nem tempo — apenas o pulsar eterno de uma energia que se recriava em cada instante. O monge fechou os olhos e sorriu, como quem contempla o infinito. Então, compreendi: não somos prisioneiros de relógios, nem de calendários, nem de certezas. Somos viajantes de uma dança sem começo e sem fim. Naquele momento, o céu abriu-se em mil cores, como se o próprio cosmos revelasse a sua essência. Não havia escuridão, não havia luz — havia apenas o brilho do ser, que não precisa de nome, nem de idade, nem de fronteiras.

E eu, pequeno diante da imensidão, percebi que tudo o que existe é o agora. O resto é invenção. O resto é sonho. O resto é ilusão. Assim, no coração do silêncio tibetano, descobri que a eternidade não está no tempo, mas no instante que nunca termina.

 

ARMANDO E DESARMANDO

 

O meu trabalho começou, então, numa noite chuvosa, quando entrei naquele bar. Uma vez escutei uma frase, de quando estava em férias no Brasil: “praia de jornalista é bar”. No meu caso, qualquer taverna é sempre fonte eterna de notícias e estórias. E esse era um bar local muito frequentado e luminoso daquele trecho boêmio da cidade. Um local de intelectuais bêbados, toxicômanos e mulheres com todos os seus desejos perdidos e encontrados. Perdidos e encontrados de toda a espécie estavam ali. Uma fauna. Uma gente que passava pelas mesas daquele estabelecimento como se ali fosse o prolongamento das suas casas; das suas famílias; do vazio em seus peitos.

Um bar que ficava aberto durante toda a semana e até as altas e solitárias horas da madrugada, armando e desarmando mil corações. Um local com um som sempre inundando os ouvidos de todos. Uma casa antiga, toda reformada; com três enormes portas de madeira que davam para um grande salão onde era possível ver diversas mesas dispostas. À direita existia um extenso balcão onde bebuns solitários costumavam vomitar os seus questionamentos sobre a vida. Atrás desse balcão viam-se dezenas de garrafas de bebidas expostas em prateleiras de vidro. Caminhando-se pelo bar, podia-se perceber, ao fundo, dois banheiros, com os nomes “damas” e “cavalheiros” escritos numa plaqueta de acrílico.

Tirei o meu agasalho, depositei o guarda-chuva num canto e dei um sorriso na sua direção, agradecendo. Quando finalmente me sentei à mesa indicada para entrevistar a minha personagem, senti-me não só aliviado do peso da chuva que enfrentara lá fora, mas também alegre por dar início ao meu trabalho de um jornalista que desejava escrever um texto excelente sobre essa vida de boemia. Com personagens daquele lugar. Armando minhas perguntas, desarmando meu entrevistado.

 

A CHUVA

 

Um dia desses eu estava sentado à minha mesa de trabalho; e — como ela fica perto de uma janela que abre para a visão de inúmeras e sensuais palmeiras e demais árvores, assim como para o céu — logo percebi que nuvens escuras fechavam o horizonte acintosamente e que as folhas das palmeiras e demais árvores se agitavam num balé frenético. Pois, uma bela chuva de dilúvio bíblico, parecia que iria desabar para daqui mais alguns minutos. Dito e certo. Começou a chover a cântaros.

Deixei o meu tedioso trabalho de revisão dos meus erros escritos e fui até a janela para observar.

Lembrei então de uma determinada manhã chuvosa de um desses “torós” amazônicos. Estava atravessando a rua 10 de julho e olhava para a cúpula colorida do teatro Amazonas. E via o prenúncio do iminente temporal. Para dramatizar ainda mais essa situação sensorial, o sino da igreja de São Sebastião, ali perto, começou a repicar as suas badaladas, revelando um quadro dantesco, de fim de mundo, ao meu olhar. Resolvi abrigar-me debaixo de uma marquise.

Demorou exatos trinta minutos — lembrei ainda — para a chuva começar a amainar. E, de repente, na passagem daqueles trinta minutos de intensidade, os olhares dos transeuntes ali postados, notei então que um engraxate observava tranquilamente a água arrulhando pelas bordas da calçada. A sua vontade de menino, talvez, fosse a de mergulhar de cabeça naquelas águas que escoavam rápidas e se deixar levar pelo mundo.

A chuvarada daquela manhã também passou. Logo voltei ao meu chatíssimo trabalho de ter que encontrar os meus erros passados nos livros escritos no fragor das minhas tempestades internas. Resíduos que escoaram. Lixo aglomerado na boca de lobo.

 

 

O BANQUETE

 

Alguns poetas, escritores, músicos e professores do meio cultural local já se encontravam reunidos para o tradicional almoço das sextas-feiras, organizado coletivamente no restaurante do português Francisco. Poucos, mas, os essenciais. Os mesmos rostos das reuniões frequentes. E, entre os tantos prazeres dessas confraternizações, o que mais lhe agradava era sempre a comida — especialmente o famoso cozido — e os vinhos, escolhidos com maestria pelo anfitrião lusitano.

— Quero comer e beber em alto estilo! — exclamou o Luís ao chegar. — Se possível, embriagar-me com vinho seco da mais nobre estirpe — completou, com um sorriso malicioso. Sentou-se degustando um belo Cohiba. Pensando que ainda haveria o famoso pudim de leite cremoso do Francisco, reservado para fechar, com chave de ouro, o banquete.

Ali, quem mandava era o espírito — muito mais que o corpo. E assim celebrou a presença dos amigos em mais um dos banquetes eternos da conhecida confraria apelidada de “A Panelinha.” — Meu prato favorito está pronto, Francisco? — Sim, preparei o cozido que vocês tanto adoram — respondeu prontamente o português. — O banquete perfeito – comentou então. — Que se abra a sessão e comecem os serviços! – exclamou. O tempo urge! E, hoje, como sempre, falaremos apenas da nossa literatura. Vamos lá!

E assim, entre garfadas lentas e goles generosos, os debates se acaloraram. Versos foram recitados, trechos de romances revisitados, e até uma nova composição ao violão surgiu, improvisada entre risos e brindes. O restaurante se enchia de vozes e ideias, como se cada canto da sala fosse um palco de criação.

(Conto em homenagem à saudosa "Panelinha" dos sábados do passado) ...

 

O CAMINHO DE ÂNGELA

 

Naquela manhã, quando abriu os olhos, Ângela decidiu que esta seria diferente de todas as últimas manhãs de sua vida. Decidiu que iria deixar essa cidade infernal onde vivia para trás. Pensou que iria caminhar pelo mundo, levando somente uma mochila nas costas e uma mala bem pequena de rodinhas na mão. Nada de somente acordar, limpar o rosto, escovar os dentes, ligar a televisão, circular pela sala vazia e ficar acessando a internet em busca do que se interessar. Nada de arranjar mil maneiras fúteis de passar o tempo de sua aposentadoria forçada. Pintando o cabelo de azul para disfarçar os fios brancos; comprando roupas esportivas e vestidos caros que não iria usar mais de uma vez; adquirindo bolsas e mais bolsas para a sua coleção de bolsas; participando de chás beneficentes e casamentos tediosos.

Mas, depois da decisão tomada, levantou-se da cama para aproximar-se mecanicamente do espelho do banheiro. E viu, então, com outros olhos, os seus sessenta e três anos. Um pouco envelhecida, sim; mas rejuvenescida pela decisão tomada. Passou então as mãos pelos cabelos desgrenhados e levantou as sobrancelhas delineadas. A vontade que teve foi de arrancar tudo aquilo que via, com um repuxão. Sobre os cabelos, pensou em não tingir mais. Quanto ao rosto anguloso — embora com algumas rugas aqui e ali e lábios deformados — ainda guardava uma beleza possível. “Madura, sofrendo, mas ainda bonita”, pensou melhor.

Mas, de repente, sentia que aquilo não era tudo, face a essa futilidade da vida. Seus olhos amendoados pediam uma saída. Umas lágrimas saíram então. Mas logo em seguida pensou naquelas palavras lidas durante a noite, pouco antes de cair no sono. Lendo dois livros, como sempre gostava de fazer para relaxar. Um, o livro do escritor catalão Enrique Vila-Matas, de título Doutor Pasavento; o outro, da poetisa brasileira Cora Coralina. Os dois, em trechos fundamentais, perturbavam a sua alma angustiada de tal maneira que, quando se levantou para ir ao banheiro, ainda de madrugada, com aqueles novos pensamentos a martelarem sua cabeça, sentiu que precisava fazer algo diferente. O livro de Vila-Matas a explanar sobre um personagem que resolve desaparecer e o de Cora, no trecho que lhe permanecia na mente como um prego martelado até o fim, dizia: “Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: leve tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas. Daqui para frente, somente o que couber no bolso e no coração.”

Para confirmar bem o que lera, voltou aos livros e às mesmas palavras, lendo-as pausadamente, quase soletrando, o que os escritores haviam dito sobre como desaparecer. “Farei isso, então”, pensou, enquanto finalmente resolveu aprontar-se. O olhar perdido na imensidão da decisão tomada: desaparecer. Traçar outro caminho. Sem esta rotina acachapante de todos os dias. Acordar em hotéis e pousadas. Deitando-se em outras camas. Conhecendo o desconhecido. Trilhando novos caminhos. Seus caminhos novos.

 

O SILÊNCIO

 

Dorival chegou cedo à sala, como sempre. Tinha aquele caderno encardido de anotações e perguntas, e os olhos inquietos de quem ainda acreditava que o mundo podia ser decifrado com palavras. Antunes, o professor de filosofia, já estava lá, sentado à beira da janela, olhando o pátio como quem observa o tempo passar sem pedir licença.

— Professor, hoje eu queria entender melhor aquela ideia do Heidegger… sobre o ser e o nada — disse Dorival, já abrindo o caderno.

Antunes virou o rosto devagar, como quem volta de longe.

— Dorival… — começou ele, com a voz mais baixa que o costume — hoje não.

— Como assim, hoje não? O senhor sempre diz que o pensamento não tira folga.

Antunes sorriu, mas era um sorriso cansado. Olhou para o caderno, depois para o céu, depois para Dorival.

— Sabe, meu caro… passei a noite tentando escrever uma resposta para uma pergunta que nem sei se existe. E hoje, pela primeira vez, percebi que não tenho mais nada a dizer.

Dorival franziu o cenho, como quem ouve um absurdo.

— Mas o senhor é professor de filosofia! Vive de dizer coisas!

— Pois é. E talvez esse seja o problema. Passei a vida tentando nomear o indizível, explicar o que escapa, traduzir o silêncio. E agora… agora tudo me parece ruído.

Dorival se calou. O caderno ficou aberto, mas inútil. Antunes se levantou, caminhou até a estante, pegou um livro de capa dura e o devolveu ao lugar sem abrir.

— Às vezes, Dorival, o ato mais filosófico que podemos fazer é calar. Não por desistência, mas por respeito. Há um ponto em que as palavras já não alcançam. E talvez eu tenha chegado lá.

Dorival olhou para o professor como quem vê um monumento ruir. Mas havia algo bonito naquele silêncio. Algo que não se ensinava, mas se sentia.

— Então… o senhor vai parar de dar aula?

Antunes pensou. Olhou de novo para o pátio.

— Não. Mas talvez eu comece a ensinar o silêncio. E você, se quiser, pode aprender a escutar o que não se diz.

Dorival fechou o caderno. Pela primeira vez, saiu da sala sem fazer pergunta alguma. E Antunes ficou ali, olhando o mundo, como quem finalmente compreendeu que o mais profundo dos pensamentos talvez seja aquele que não se pronuncia.

 

PALAVRAS DE CRUZ

 

Quando eu estava na Espanha, fui a um claustro e conheci um monge de nome Cruz (nome fictício para proteger a privacidade dele). Um amigo conseguiu que eu entrasse em contato com ele. Uma ordem mais aberta e até modernizada. Com um blog, inclusive.

— Venha comigo que levo você até onde ele está — disse o amigo.

Saímos daquela secretaria e fomos adentrando o interior do claustro. Andamos alguns metros, passamos por alguns arcos, cruzamos por algumas salas até que chegamos em frente a uma porta. O amigo deu três batidas na porta e esperou. Quando a porta foi aberta, fui então apresentado ao venerável monge Cruz que, muito sorridente, nos atendeu. E as conversas que se desenrolaram a partir desse encontro foram transformadoras para mim. Lembro de algumas coisas ditas e que muito me impressionaram.

— Nossa vida é feita de caminhos, já reparou nisso? — observou o monge, em determinado momento. — Até o último dia — disse ainda. E ainda assim não paramos. Nossa energia flui pelo espaço sideral. O começo, o meio e o fim. É isso, a vida dessa energia que chamamos de Deus. Eletromagnetismo de uma luz que flui em todas as direções. Os cientistas não encontraram então a dita partícula de Deus, recentemente? É isso. Só isso. O que está acima e abaixo. Após o Big Bang, luz e ocupação. No horizonte de luz e mesmo nas trevas do cosmos. Caminhando. Fluindo, criando e destruindo sem cessar. É a vida. O senhor vai ficar aqui até quando?

— Amanhã já volto, de ônibus, para o Porto e …

… — De lá para o Brasil — disse, sorrindo.

— Sim.

— Gostou de ter realizado esse caminho?

— Muito.

— Ótimo. Mas ainda mais vai ter que caminhar pela vida.

— Espero que sim — concordei, rindo.

— Bom. Foi um prazer conhecer um aluno a mais da confraria. Ainda mais vindo do Brasil. Mas qual é a tua profissão?

— Sou jornalista. Imerso em informações e mais informações. E em milhões e milhões de pessoas querendo reconhecimento público pelo que fazem.

— É isso mesmo — concordei, rindo.

— Ocasionalmente, acesso um computador lá na secretaria e fico pesquisando alguns assuntos. Mas fiquei sabendo como o mundo também está saturado, com essas redes sociais e tudo o mais. Esse excesso de informações e de influenciadores. Mas isso é uma prisão, não? Se a pessoa obtém a sensação, através da informação e do constante reconhecimento do que é ou faz, por parte dos outros, ao longo de um tempo, ela não terá outra maneira a não ser viver de acordo com os desejos de outras pessoas. Não existe liberdade nessas sensações que nascem do desejo de reconhecimento. A felicidade só é possível quando se tem liberdade. Só se tem liberdade se não ficarmos querendo o reconhecimento dos outros pelo que fazemos. Muitos buscam uma atenção e uma superioridade. A minha clausura, aqui, é uma libertação bem maior. Sem comparação. Mas muitos não compreendem isso.

E muito mais esse religioso falou naquele encontro. E o que disse foi marcante. Liberdade traz felicidade. Ainda mais quando não se busca o êxtase de seguidores que aprisionam. “Que coisa, o mundo?”, pensei, ao me despedir de Cruz.

 

ARTISTAS & FRASES

 

Das conversas que tive com o escritor Márcio Souza, quando fui algumas vezes no apartamento dele para trocarmos figurinha, guardei uma frase interessante: “Após o livro estar impresso, você deve pensar que a sua editora pode muito bem enterrá-lo depois do lançamento.” Verdade. Noite de lançamento — com amigos, parentes e alguns aficionados — e, depois que acaba a “festa”, existe o perigo de enterrarem o teu livro em alguma “estante” no fim de um corredor. Ou, pior, muitos exemplares ficarem jogados e esquecidos em uma caixa do quartinho de tralhas. Acontece muito com escritores meio que desconhecidos. A vaidade é passageira, mas o livro fica. Assim como uma frase importante.

Outro artista, com uma frase lapidar que eu nunca esqueço, foi o Moacir Andrade, o nosso pintor amazônico. Um dia do passado, estava indo à casa dele e encontrei o gigante, só de calção, sentado num banquinho de uma lanchonete quase ao lado da sua residência. Estava lá, de bobeira, vendo o movimento da vida. Começamos a conversar, e ele, em determinado momento, virou-se para mim e disse: “Maninho, desta vida a gente não leva nada, só deixa.” Outra verdade. Tudo vai ficar e a gente vai desaparecer como um vento que passou. Então: muita calma. E aproveite a vida. Pois, o resto fica. Livros, reconhecimentos e galardões. E que depois também podem ser esquecidos, atropelados por novas gerações e sensações.

E mais um artista amazonense de frases famosas foi o poeta Luiz Bacelar. Mas a frase lapidar dele, que nunca esqueci, aconteceu depois que ele desapareceu, um determinado domingo, da mesa onde almoçávamos. Foi ao banheiro e disse que iria respirar lá fora do restaurante e sumiu. Terminei de beber o meu chope sozinho, almocei sozinho e tentei me comunicar com ele. Nada. Até depois que saí do restaurante. E nada. O poeta havia desaparecido no mundo. “Abduzido?”, pensei. Depois fiquei sabendo que ele sumira devido a uma forte dor de barriga: … “e que me fez passar muito mal, no táxi, tanto que” … Mas não repito aqui o restante da frase que ele falou, pois prefiro pensar somente em sua excelente poesia de tão belas frases edificantes, que ficaram. Solidificadas.

Além da literatura de ficção e, ocasionalmente, das poesias dos bons poetas, gosto de ler livros de Economia. Adoro ler um pesado livro de Economia. Notadamente no que diz respeito a investimentos em geral. Warren Buffett é um dos meus ídolos. Um grande artista de Wall Street. E uma frase do Warren sobre a qual sempre penso é a seguinte: “Regra número 1: nunca perca dinheiro. Regra número 2: não esqueça a regra número 1.” E essas regras também devem ser extensivas ao que fazer com algumas obras de arte que você vê por aí, nos dias de hoje.

Passo a régua, aqui.

 

O DIA EM QUE ENCONTREI JESUS

 

Andava por parte da Europa, quando, determinado dia de minha peregrinação (até Santiago de Compostela), encontrei Jesus. E tudo aconteceu assim (anotei os diálogos com Jesus):

… “Mais um pouco e estarei entrando na Espanha”, eu pensei, ao sair do local da minha hospedagem. O tempo parecia mais firme e sem chuva à vista, embora frio. Saí da hospedaria e recomecei a caminhada com a minha mochila nas costas. Alguns metros depois, divisei um bar em uma rua acima de uma curva. Resolvi entrar no estabelecimento com o intuito de comprar uma barra de cereal. Foi quando notei, sentado na frente do balcão, um sujeito com uma enorme mochila descansando a seus pés. Parecia cansado e ainda acordando lentamente.

— Bom dia — disse, dirigindo-me a ele e já pensando em entabular uma conversa.

— Buenos días — ele respondeu.

— És espanhol? — perguntei então.

— Sí.

— Soy brasileño — falei em espanhol, dizendo em seguida o meu nome e a minha direção.

— Oh! Sou de Málaga e me chamo Jesus. Estou indo também a Santiago, em peregrinação.

— Jesus! — exclamei, surpreso pelo nome. — Jesus no caminho de Santiago — trocei, rindo da coincidência. Podemos ir juntos?

— Sem problema — respondeu esse Jesus, também rindo. — Estou só dando um tempo — completou, sorrindo.

E começamos então a conversar. Eu, falando sobre o Brasil, ele sobre a sua vida em Málaga, na Espanha. Em determinado momento, saímos do estabelecimento e sentamo-nos em umas cadeiras postadas no lado de fora. Foi quando Jesus, ampliando suas explicações, começou ainda mais a falar de sua vida. Confiando em mim, desabafou:

— Estou meio perdido. Sem perspectivas na vida. Minha família está brava comigo. Minha mãe, sabe? Resolvi então fazer essa peregrinação, tentando encontrar uma saída. Saí de Málaga para o Porto e ...

… — Também saí do Porto — cortei de volta.

Dito isso, Jesus retirou um maço de cigarros do bolso.

— Você quer um? — ofereceu.

— Não, obrigado.

— Gosto de fumar, beber e viver a vida — recomeçou a falar o Jesus de Málaga. — Minha família não compreende isso — completou. Sei que tenho que trabalhar, mas não consigo ficar preso em uma rotina de trabalho por muito tempo.

Ri e disse então, tentando ser espirituoso:

— Compreendo. Não nascemos para o trabalho, realmente. Nascemos para a vida. Para enfrentarmos o nosso destino caminhando por aí. Até certo ponto, devemos ser vagabundos. No bom sentido, é claro.

E Jesus continuou:

— Enfrento o meu destino, tentando vender as fotografias que faço. Conserto computadores também. Mas logo que junto algum dinheiro, parto em uma nova viagem. No verão passado, estava em Ibiza. Conhece Ibiza?

— Não. Mas já li e vi alguns documentários sobre.

— Fantástica! Ali se vive quase que vinte e quatro horas. Lugar especial.

Paramos então de conversar e olhamos, cada qual, para o seu relógio.

— Vamos lá! — disse Jesus. — Em direção a Santiago! — apontou um dos dedos para o alto. Entrou no bar, colocou uma nota de cinco euros no balcão, pegou a sua mochila e passou à minha frente com aquele desagradável cigarro pendurado na boca.

Segui-o pensando que pelo menos teria uma companhia para o trajeto de cerca de treze quilômetros até Valença (Santiago de Compostela, cerca de cento e vinte e oito quilômetros à frente). Ao sair do estabelecimento, olhei para o céu e acreditei que não haveria mais chuva, e sim um pouco de sol. Começamos então a caminhar, seguindo as vieiras. Com esse Jesus soltando ainda muita fumaça daquele seu cigarro inconveniente, resolvi passar à sua frente. Ele parece que percebeu a minha aflição pela fumaça e diminuiu o passo até o término de seu maldito cigarro. Quando terminou, foi ele que se adiantou, jogando a bagana de lado.

— Jesus! Volte e pegue a bagana, amigo — disse-lhe. — Elas poluem e podem incendiar esses bosques — alertei.

Ele obedeceu, desculpando-se, pegou a bagana de cigarro e, esmigalhando-a com os dedos, enfiou-a em um compartimento de sua mochila e falou:

— Prometo que jogarei em alguma lareira assim que encontrar — disse, sorrindo. — E o senhor trabalha com o quê? — perguntou logo em seguida.

— Sou jornalista, documentarista de televisão e escrevi alguns livros — respondi. — Esse é o meu destino — completei. Além de peregrinar pelo mundo e me maravilhar com o desconhecido.

Jesus riu e balançou a cabeça a concordar comigo. Mas falou, meio cabisbaixo:

— É isso o que a minha mãe não entende em mim. O meu desejo pelo maravilhoso. Por seguir o meu destino. Ela queria que eu fosse advogado, como o meu pai foi. Meu pai já faleceu, faz cinco anos. Era mais velho que a minha mãe. No final da vida, esquecera tudo o que aprendeu. Esqueceu até quem ela era. Quem eu era. Não é estranho, isso?

Fiquei meditando por alguns segundos. Até resolver falar, concordando com esse Jesus de Málaga:

— Sim. Essa história do esquecimento é trágica. A morte em vida. Acho que é por isso que escrevo. Escrevo muito. Para fugir desse destino. Para fugir da morte, talvez. Embora seja impossível. Mas tento deixar um testemunho.

Jesus disse então:

— Compreendo. É isso mesmo. É assim mesmo. Ainda bem que és um escritor. Pensas no futuro. Em deixar o teu legado. Isso é bom. Eu somente vivo esse presente maravilhoso, o qual é a vida. Embora muitos não compreendam isso. O viver.

Após essas nossas palavras, Jesus e eu emudecemos. Dois desconhecidos numa trilha secular e em busca de outro destino diferente. Mas depois de muito caminhar em silêncio, resolvi então quebrá-lo:

— O que te levou a desejar fazer este caminho de Santiago?

Jesus ficou pensativo por alguns segundos. Respondeu:

— Na verdade, eu precisava respirar; encontrar-me; estar sozinho e distante de tudo e de todos.

— Isso é fundamental, no caminho — observei.

— E você? — perguntou de volta.

— Realizo um sonho de adolescente — respondi.

— Desde quando leu Paulo Coelho? — observou Jesus.

— Também. Sim. Despertou ainda mais esse desejo, quando o li. Mas também sou um estudioso e pesquisador de assuntos de religião, ocultismo e arqueologia. Interesso-me pelo espantoso e pelo absurdo.

— Acho que o absurdo naturalmente acontece nesta vida no dia a dia das pessoas, correndo atrás de sobreviver e aparecer — comentou Jesus.

— Mas procuramos ver além, não é? — disse.

Jesus então parou de andar, fazendo-me estancar também. Disse ainda:

— Era o que eu gostaria de ver um dia. Alguma coisa além dessa procura insaciável por ser alguma coisa. Não sei nada sobre muita coisa, mas acho que tudo não passa de um enorme passatempo. Tudo é ilusão. Mas, por algum motivo, temos que acreditar nessa ilusão. E seguir em frente.

— Você tem alguma razão — observei de volta, pensando em suas palavras. — Passamos o tempo preenchendo nossas vidas com algum sonho.

Jesus então comentou, meio pesaroso:

— O que ando sentindo muito é um vazio. Sempre um vazio avassalador. Acho que fujo disso.

— Talvez a vida seja somente essa fuga em direção ao nada — disse, tentando justificar o absurdo da existência.

— Mas temos que fazer algo que nos preencha e temos que preencher esse algo — ampliou o Jesus de Málaga.

— E é bom que assim seja, pois não levaremos nada, quando partirmos — completei. — Só deixaremos, aos vivos, alguns de nossos sonhos — finalizei.

— Tenho uma garrafa de vinho aqui na mochila — disse Jesus. O semblante iluminado. — Vamos beber um pouco — ofereceu.

— Opa! Vamos, sim. Embaixo daquela árvore, ali.

O clima estava ameno, a caminhada boa e o vinho poderia ser um bom combustível para aquele dia.

 

ERRAR É DESUMANO

 

Penso que errar é sempre desumano. É humano, mas desumano. E em um texto, então, nem se fala. Basta uma falta de atenção do escritor ou revisor — e POW! — um erro acontece. E aí vem o julgamento do leitor. Ou, pior, de quem nada faz além de procurar erros nos textos dos outros. Com uma certa volúpia de neófito. Na vida, o “apontar o dedo” para o erro do outro é sempre um êxtase pessoal que beira o delírio.

Sabe, quem escreve no calor da emoção da imaginação dedilhada, que o erro está sempre lá. Invisível como o décimo primeiro mandamento. Mas qual para pensar assim? Pelo simples fato de que, ao errar, o outro, que nada fez, o condena logo. “— Errou! Olha só! Ele não sabe?”, gritaria o explorador de erros. E por aí vai. É desumano. Errar, em literatura, é desumano. Falo de textos. Errar uma letra que seka (olha o erro!) seja, é muito desumano.

No ato de escrever, sempre aparece um erro de digitação ou revisão malfeita, aqui e ali. Mas é um erro que passou pelo apressado e ansioso escritor e pela falta de revisão criteriosa de muitas editoras. Que nem revisores têm. O escritor que se vire. Ou pague caro. Mas um erro que seja em um texto elaborado com tanto carinho e amor é como um prego de uma cruz onde o escritor ficará, inevitavelmente, pregado pelo resto de sua vida pregressa e eterna de escritor.

Para quem é perfeccionista, ao aparecer um pequenino erro, é como se aquele “pequenino erro” que passou pelo olhar dele e do revisor fosse o fim da credibilidade total como ser humano e escritor na face da Terra. “Mas eu sou escritor, não sou professor de português!”, gritaria o desesperado escritor, se desculpando. “Não tem desculpa!”, clamaria o pesquisador de erros alheios; o torturador da santa inquisição acadêmica. “A tua obrigação é saber bem a língua materna.”, completaria. Um sorriso sádico a revelar os caninos. Frases inquisitórias daquele pobre frustrado, por pouca; ou quase nenhuma imaginação de escritor. Mas que continuaria explorando a oportunidade: “Não pode esquecer de escrever certo, meu filho! Você não conhece o português, cacete? Não sabe que uma vírgula muda tudo, criatura?”

E o pobre do escritor, se pudesse se defender, diria: “Mas o erro passou na revisão, professor! Escrevi Anteneu, no lugar de Ateneu, e o revisor não viu a bosta do “n” que saiu!”. (Ato falho, talvez. Coisas do inconsciente. A explicação e justificação: Tenho um vizinho chato que responde pelo nome de Antenor).

Mas o fato é que muitas editoras, especialmente as menores ou independentes, não contam com revisores profissionais. E o que ninguém pensa é que o escritor não é obrigado a ser especialista em gramática ou normas da língua. Escrever literatura, poesia ou até textos técnicos é uma habilidade diferente de dominar todas as regras do português.

Consequências: Textos chegam ao público com erros ortográficos, concordância ou até de coesão. E a imagem do autor pode ser prejudicada. Já passei por isso, e digo: — Errar é desumano, em literatura. E, na vida.

 

AÇÚCAR, GORDURA & SUS-to

 

Tenho um vizinho que está acima do peso. Mas os seus movimentos são tão bem coordenados que mais parecem levitar nos lépidos pezinhos, quando anda. Um dia desses, observando-o se deslocando pelo interior do condomínio, em uma hora inconveniente, comecei a pensar na saúde das pessoas que, por algum motivo, ficaram pesando um pouco mais. Estão “acima do peso”.

Aí logo penso que devemos separar as pessoas “acima do peso” em duas categorias: os que herdaram o seu peso e os que ficaram pesados de tanto comer açúcares e gorduras. Aquela comida gordurosa e suculenta demais, aquela torta açucarada demais ou uma lasanha que mais parece uma pista de tobogã molhada. Repleta de componentes “saborosos”. Pois isso tudo, em demasia, é de matar qualquer um.

De acordo com dados da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) do IBGE, 18,4% das calorias diárias ingeridas pelos brasileiros são provenientes de produtos ultraprocessados. De alto teor calórico. E quando resolve ingerir álcool, a coisa piora ainda mais. A pessoa não sabe parar, fica bebendo uma eterna “saideira” e nunca sai. Só entra. E quando então o POF vira PLOFT.

O brasileiro, em geral, é um povo que come por pura alegria. Isso é bom. Mas comer sem pensar tem o seu preço aferido nas balanças; e, mais tarde, no SUS (para quem não tem plano médico privado). E aqui é que começa o susto.

Comer ovos fritos diariamente, salsichas, calabresas, vatapás, maioneses, ketchup e sorvetes faz acontecer uma revolução no estômago. E, com o tempo, engorda. Depois, o corpo ainda tem que suportar essa acumulação descabida. E pulsar.

É tanta coisa a ser processada que ele vai indo, com o tempo, e em fila crescente, direto para os hospitais. Para os mais gulosos — que comem muita gordura e açúcar como se não houvesse amanhã — pode acontecer de aparecer o diabo de um diabetes tipo 2. E se uma dor, nas costas e na barriga? Lá vem susto.

… “É pedra! É pedra! É pedra!”, gritaria um Dr. Galvão, que não seria o Bueno, da vida.

E aí as filas nos hospitais só aumentam. Alguma operação de emergência que só iria acontecer após meses de espera. Uma emergência a ser paga em longas prestações não muito suaves. Com sustos.

Pensei em tudo isso, rapidamente, quando vi o meu vizinho andando, em pleno sol de meio-dia, pelo meio do condomínio. Parei o carro, cumprimentei o peregrino e perguntei:

— Vai aonde — atleta — debaixo de um sol desses, deste mês de agosto?

E ele respondeu, alegre como uma criança de olho na bala:

— Vou almoçar no apartamento do meu primo! Ele acabou de ligar dizendo que preparou uma feijoada daquelas!

“Pelo menos não é sedentário”, pensei em pensar que ele estava caminhando. E torci para ele não ter “um troço” e cair, àquela hora, no meio do condomínio.

Continuei a dirigir e olhei pelo retrovisor para ver se ele ainda estava em pé.

Estava.

Então, eu segui para o meu apartamento para comer uma salada completa com 3 filezinhos de frango. Tendo como sobremesa um iogurte integral. Tudo orgânico.

E pensei com os meus botões: “Melhor prevenir que remediar.”

 

TUDO É VAIDADE

 

Era uma terça-feira qualquer e eu estava em São Paulo. Pronto para aproveitar o café da manhã do hotel. Sentei-me à mesa e olhei para fora do hotel por uma extensa área envidraçada pertencente ao restaurante e vi que a manhã parecia ter decidido optar pelo cinza e um frio insinuante…

… Foi quando percebi, ainda olhando para a rua lá fora, uma senhora toda encapotada e que havia parado na frente de uma vitrine e ajeitava o cabelo com a ponta dos dedos, como quem tenta domar o tempo…

… Olhei para aquela vaidosa e desconhecida senhora em sua preocupação com a aparência e pensei: “Tudo é vaidade”. Mas logo comecei também a pensar presentemente das nossas redes sociais onde a vaidade floresce desbragadamente…

… Vivemos num teatro onde cada um quer ser “o protagonista” de uma vida ou peça teatral (mesmo que a peça seja ruim), desde que a plateia nos olhe, siga e curta. Desde que nos aplauda. Desde que nos valide. Desde que nos… Não interessa. Temos que aparecer. Centenas de seguidores geram um êxtase profundo no solitário Ego vaidoso e necessitado de atenção…

… Mas um cabelo tem a sua suprema importância momentânea e especial. Principalmente para as mulheres. Um simples cabelo muda tudo.

Essa vaidade nasce do desejo de ser admirada por todos. Mas, para muitos, essa vaidade é o perfume que usam para disfarçar o ser que não quer ser esquecido. É o salto alto da alma, tentando parecer maior e mais bela. E isso é humano. Profundamente humano…

… Mas todos são “aquela criança” que mostrou o seu desenho torto e esperou o elogio da mãe ou do pai que estava ali ao lado? Não sei se, todos?…

… Mas o fato é que tudo é vaidade, sim. Pois queremos continuar existindo ao nosso olhar no espelho e no olhar do outro…

… Um êxtase existencial que libera a bendita dopamina. O inconsciente ou consciente “desejo de ser reconhecido”. Tentativa de obter e satisfazer as expectativas alheias. Recompensa. E punição…

… Pois se corre o risco da dependência… do olhar e da curtida do outro. Chega a ser triste, se assim for…

… Após um certo tempo, a senhora da calçada, que ficara parada em uma parada de ônibus, foi embora. Pois como tudo passa na vida, seu ônibus então passou e a levou embora…

 

AS PALAVRAS ACEITAS

 

Ontem escrevi um texto que apelidei de "texto crônico". Mas mais por causa de sua crítica.

Textos crônicos não são crônicas e nem contos...São artigos, descobri...

A palavra "artigo" tem uma origem bem interessante! Ela vem do latim "articulus", que significa “pequena junta” ou “parte pequena”, derivado de artus, que quer dizer “junta” ou “membro”. A ideia original era de algo que conecta ou articula partes, como uma articulação no corpo ou uma conexão entre ideias.

Com o tempo, esse sentido foi se expandindo...

...Na linguagem passou a designar uma parte de um texto, como um artigo de lei ou um artigo jornalístico; ou seja, uma unidade que articula um pensamento dentro de um conjunto maior.

Na gramática virou o nome da classe de palavras que acompanha o substantivo (como “o”, “a”, “um”, “uma”), ajudando a definir ou especificar.

No comércio: passou a significar um item ou produto. Um “artigo” à venda.

Curioso como uma palavrinha pode se desdobrar em tantos significados, né?

Já a palavra "crônica" tem uma origem fascinante e cheia de história! Ela vem do latim "chronica", que por sua vez deriva do grego khronika, relacionado a khronos, que significa tempo.

Ou seja, originalmente, uma “crônica” era um registro dos acontecimentos ao longo de um tempo. Como uma espécie de diário histórico. Com o passar dos séculos, o termo foi ganhando novos significados.

Na Idade Média, “crônicas” eram textos que narravam eventos históricos em ordem cronológica. Daí o nome!

Eram usadas para contar a história de reis, batalhas, povos e acontecimentos marcantes.

Na literatura e no jornalismo, a crônica virou um gênero textual mais leve e reflexivo.

É comum em jornais e revistas, onde o autor comenta fatos do cotidiano. Com humor, crítica ou poesia.

Escritores como Rubem Braga, Luis Fernando Verissimo e Clarice Lispector são (foram) mestres da crônica brasileira.

Crônica é uma observação sobre o dia a dia, às vezes com um tom filosófico ou irônico...

 

ENCONTREI UM BRUXO NO CAMINHO

 

Estava cruzando parte da Europa com uma mochila nas costas. Caminhando quilômetros e mais quilômetros, todo santo dia. Meus passos vigorosos e livres em direção a Santiago de Compostela. Mas no início daquela manhã de caminhada, a chuva incomodava. Abri o guarda-chuva e comecei a caminhar, saindo de Arcos de Valdevez em direção a Barcelos, vinte quilômetros à frente. O vento frio me fustigando a face, não de todo protegida. “Muito tempo para pensar, meditar e relembrar”, pensei, ao virar por uma esquina de rua. Os pensamentos acompanhavam os meus passos.

Caminhei um pouco mais, até que divisei a famosa igreja de São Pedro de Rates, no conselho de Póvoa de Varzim. Vi então que a sua porta principal estava aberta. Como a chuva e o vento me fustigavam violentamente, resolvi entrar na igreja com o intuito não só de rezar, mas esperar um pouco mais pela diminuição da chuva para então poder reiniciar o caminho com mais capacidade. Aquela igreja, eu sabia, era um dos mais importantes monumentos românicos medievais erguidos no início do reino de Portugal.

Ao entrar naquele recinto religioso de tantas histórias e uma fé secular, meus olhos demoraram um pouco a perceber o seu interior, face à extrema escuridão reinante e à adaptação dos meus olhos. Meus olhos ainda passeavam pela parte superior quando resolvi me aproximar de um banco para me sentar. Foi quando notei o vulto do que parecia um homem em profunda meditação, em uma parte dos bancos da lateral da nave. Levei um pequeno susto pela surpresa com uma sensação de frio repentino no peito. Mesmo assim, sentei-me em um banco, tentando não fazer nenhum barulho.

Mas, não demorou muito, o vulto levantou-se e caminhou na minha direção. Fiquei apreensivo.

— Bom dia — disse o homem, ao chegar ainda mais perto de mim e amistosamente sorrindo — estava esperando por você, meu caro peregrino.        

O meu coração então acelerou seus batimentos pela surpresa, espanto e medo. "Esperando por mim?".

— Meu nome é Sebastian — se apresentou o homem, abrindo um sorriso e falando um portunhol arrastado. — Moro e trabalho em Santiago — completou. E você é o Marco, correto?

— Como sabe o meu nome? O senhor mora aqui nesta localidade? Nesta igreja? — indaguei, firme.

O homem então parou de andar. E falou:

— Deixa eu lhe esclarecer uma coisa, de imediato. Para tranquilizar o teu coração. Faço parte de uma ampla rede de ajuda a peregrinos do Caminho de Santiago. Peregrinos que consideramos especiais. Uma sociedade secreta. Uma sociedade secreta da qual o teu guia — dessa agência que contrataste para os serviços de hospedagem e apoio — também faz parte. É uma sociedade secreta de mestres ocultistas ligados aos antigos templários; ligados à Maçonaria, inclusive. São grupos de estudiosos, velhos alquimistas, ocultistas e bruxos, espalhados por toda a Europa. Alguns são escritores de livros espiritualistas e de psicologia, etc.

— Mas como sabia que eu iria entrar aqui, nesta igreja, e...

— Sou um bruxo! — exclamou então o homem, rindo da minha cara de espanto. E sei que gostas de entar em igrejas antigas.

A partir desse insólito encontro, esse sujeito, de nome Sebastian, resolveu me acompanhar até Santiago de Compostela. Sempre repassando informações e ensinamentos que eu nunca poderia imaginar que um dia iria receber. Esse encontro gerou até um livro, escrito por mim.

O mundo é muito estranho e sempre pode aparecer uma pedra angular no meio do caminho de qualquer peregrino…

 

A LIBERDADE DE NÃO POSTAR NADA.

 

Relaxar!... Trabalhar?...Consertar erros, criar novos textos. Só pretextos. Mas saber parar, desligar e não digitar e postar é muito bom...Liberdade. Em uma era em que tudo parece exigir registro, compartilhamento e validação pública, há uma forma de liberdade que passa despercebida: o direito de não postar nada. Não postar é um ato de resistência contra a urgência de estar sempre visível. É escolher o silêncio em meio ao ruído, preservar momentos sem filtros, sem likes, sem algoritmos. É entender que nem tudo precisa ser contado, que há beleza no que permanece apenas entre você e o instante vivido.
Essa liberdade é íntima. É o café tomado em paz, o pôr do sol que não vira story, a conquista que não precisa de aplausos virtuais. É o descanso da mente que não calcula engajamento, que não se compara, que não se mede por métricas. Não postar é também um gesto de cuidado. Com o tempo, com a saúde mental, com a autenticidade. É permitir-se existir sem performance, sem curadoria, sem a obrigação de ser interessante o tempo todo.
Porque às vezes, o que não se compartilha é o que mais nos pertence.
E paro aqui, esse texto. Ou, não me liberto.

 

TUDO É VAIDADE

 

Era uma terça-feira qualquer e eu estava em São Paulo. Pronto para aproveitar o café da manhã do hotel. Sentei-me à mesa e olhei para fora do hotel por uma extensa área envidraçada pertencente ao restaurante e vi que a manhã parecia ter decidido optar pelo cinza e um frio insinuante. Foi quando percebi, ainda olhando para a rua lá fora, uma senhora toda encapotada e que havia parado na frente de uma vitrine e ajeitava o cabelo com a ponta dos dedos, como quem tenta domar o tempo. Olhei para aquela vaidosa e desconhecida senhora em sua preocupação com a aparência e pensei: “Tudo é vaidade”. Mas logo comecei também a pensar presentemente das nossas redes sociais onde a vaidade floresce desbragadamente. Vivemos num teatro onde cada um quer ser “o protagonista” de uma vida ou peça teatral (mesmo que a peça seja ruim), desde que a plateia nos olhe, siga e curta. Desde que nos aplauda. Desde que nos valide. Não interessa. Temos que aparecer. Centenas de seguidores geram um êxtase profundo no solitário Ego vaidoso e necessitado de atenção. Mas um cabelo tem a sua suprema importância momentânea e especial. Principalmente para as mulheres. Um simples cabelo muda tudo. Essa vaidade nasce do desejo de ser admirada por todos. Mas, para muitos, essa vaidade é o perfume que usam para disfarçar o ser que não quer ser esquecido. É o salto alto da alma, tentando parecer maior e mais bela. E isso é humano. Profundamente humano. Mas todos são “aquela criança” que mostrou o seu desenho torto e esperou o elogio da mãe ou do pai que estava ali ao lado? Não sei se, todos? Mas o fato é que tudo é vaidade, sim. Pois queremos continuar existindo ao nosso olhar no espelho e no olhar do outro. Um êxtase existencial que libera a bendita dopamina. O inconsciente ou consciente “desejo de ser reconhecido”. Tentativa de obter e satisfazer as expectativas alheias. Recompensa. E punição. Pois se corre o risco da dependência… do olhar e da curtida do outro. Chega a ser triste, se assim for. Após um certo tempo, a senhora da calçada, que ficara parada em uma parada de ônibus, foi embora. Pois como tudo passa na vida, seu ônibus então passou e a levou embora…

 

AS PALAVRAS ACEITAS 

 

Ontem escrevi um texto que apelidei de "texto crônico". Mas mais por causa de sua crítica.

Textos crônicos não são crônicas e nem contos...São artigos, descobri...

A palavra "artigo" tem uma origem bem interessante! Ela vem do latim "articulus", que significa “pequena junta” ou “parte pequena”, derivado de artus, que quer dizer “junta” ou “membro”. A ideia original era de algo que conecta ou articula partes, como uma articulação no corpo ou uma conexão entre ideias.

Com o tempo, esse sentido foi se expandindo...

...Na linguagem passou a designar uma parte de um texto, como um artigo de lei ou um artigo jornalístico; ou seja, uma unidade que articula um pensamento dentro de um conjunto maior.

Na gramática virou o nome da classe de palavras que acompanha o substantivo (como “o”, “a”, “um”, “uma”), ajudando a definir ou especificar.

No comércio: passou a significar um item ou produto. Um “artigo” à venda.

Curioso como uma palavrinha pode se desdobrar em tantos significados, né?

Já a palavra "crônica" tem uma origem fascinante e cheia de história! Ela vem do latim "chronica", que por sua vez deriva do grego khronika, relacionado a khronos, que significa tempo.

Ou seja, originalmente, uma “crônica” era um registro dos acontecimentos ao longo de um tempo. Como uma espécie de diário histórico. Com o passar dos séculos, o termo foi ganhando novos significados.

Na Idade Média, “crônicas” eram textos que narravam eventos históricos em ordem cronológica. Daí o nome!

Eram usadas para contar a história de reis, batalhas, povos e acontecimentos marcantes.

Na literatura e no jornalismo, a crônica virou um gênero textual mais leve e reflexivo.

É comum em jornais e revistas, onde o autor comenta fatos do cotidiano. Com humor, crítica ou poesia.

Escritores como Rubem Braga, Luis Fernando Verissimo e Clarice Lispector são (foram) mestres da crônica brasileira.

Resumindo: Crônica é uma observação sobre o dia a dia, às vezes com um tom filosófico ou irônico...

 

 

 

 

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